24 de julho de 2012

CATIVO PSICOLÓGICO

A burocracia empregada a serviço de fins desumanos tem-se demonstrado habilmente capaz de silenciar motivações morais não só em seus empregados, mas muito além dos limites da própria organização burogrática. Isso é conseguido mediante o apelo ao motivo da autopreservação, como a gerência burocrática do genocídio assegurou a indiferença moral da maioria dos espectadores e mesmo a cooperação de muitas de suas vítimas.

Os possíveis vitimados tinham se convertidos em "cativos psicológicos" e, assim, foram enfeitiçados pelas perspectivas ilusórias de tratamento benéfico como recompensa à submissão. Eles esperavam, contra a própria esperança, que algo ainda pudesse ser salvo, que alguns perigos pudessem ser evitados, supondo que bastaria apenas que os opressores nao fossem demasiadamente ofendidos, e sua cooperação seria recompensada. Em muitos casos essa complacência antecipadora surgiu quando as vítimas deixaram seus caminhos a fim de satisfazer os opressores, supondo previamente suas intenções e executando-a com temperada paixão. Não foi senão no último momento que eles se depararam com a inevitabilidade do seu destino. Desse modo, os controladores do genocídio alcançaram seus fins com o mínimo de desordem, e poucos guardas eram necessários para supervisionar a longa e obediente marcha até as câmaras de gás.


Zygmunt Bauman

O MERCADO PROSPERA NA DESIGUALDADE DA RIQUEZA

Mesmo os estilos de vida mais elaborados devem ser representados como universalmente disponíveis se querem ser introduzidos com sucesso no mercado. Sua suposta acessibilidade é a condição necessária para sua capacidade de seduzir. Eles inspiram as motivações de compra e o interesse dos consumidores porque compradores potenciais acreditam que os modelos que procuram são atingíveis.

A igualdade dos consumidores nos termos de sua capacidade de determinar livremente sua posição social. À luz dessa suposta igualdade, a falha em obter os bens que os outros apreciam é compelida a criar sentimentos de frustação e de ressentimento. Essa falha parece inevitável. A acessibilidade genuína aos estilos de vida alternativos é determinada pela capacidade de pagamento dos potenciais praticantes.

Por trás da ostensiva igualdade de oportunidades promovida e anunciada pelo mercado, repousa a desigualdade prática dos consumidores, na forma de graus agudamente diferenciados de real liberdade de escolha. Essa desigualdade é percebida ao mesmo tempo como opressão e estímulo. Ela produz uma experiência dolorosa de privação, com todas aquelas mórbidas consequências para a autoestima que já analisamos. E provoca também esforços zelosos para realçar a capacidade de consumo de alguém - esforços que garantem incessante demanda para o que o mercado oferece. O fato de serem integrados por artigos totalmente disponíveis nas lojas não os torna veículos de igualdade.

Por trás da reivindicação que sugere estar a realização ao alcance de todos repousa a realidade da imputação que é estabelecida de acordo com a desigual distribuição da capacidade de pagamento. O mercado prospera na desigualdade da renda e da riqueza, mas não parece reconhecer posições sociais. Todos os veículos da desigualdade são negados, menos a etiqueta de preço. O poder esmagador dos critérios suportados pelo mercado para a diferenciação social em aparência invalida todos os seus concorrentes. Muito simplesmente, não deve haver nenhum bem que o dinheiro não possa comprar, e o mercado não é visto como a corporificação de valores e preconceitos particulares, mas como força universal e livre de valores que todas as pessoas razoáveis devem aceitar.

Os grupos mantidos em posição inferior por restrições "atributivas" em geral são também empregados em trabalhos mal remunerados, de modo que não conseguem arcar com os estilos de vida destinados àqueles que tiram proveito de seu trabalho. Nesse caso, o caráter atributivo da privação permanece oculto. As desigualdades visíveis são explicadas como resultados de menos talento, diligência ou perspicácia dos membros do grupo despossuído; não fosse por seus defeitos inatos, eles poderiam ser bem-sucedidos como qualquer um. Tornar-se como aqueles que eles devem invejar e desejam imitar estaria dentro do seu alcance se atuassem sobre seus desejos.

Toda posse divide e distingue as pessoas; mas só confere poder se as necessidades do excluído exigem o uso dos objetos possuídos. A posse é uma condição de possibilidade porque pode ampliar a autonomia, a ação e a escolha, de modo que posse e liberdade são frequentemente consideradas inseparáveis.


Zygmunt Bauman

19 de julho de 2012

UMA HORA E MAIS OUTRA

Tu vives, mas triste
Duma tal tristeza
Tão sem água ou carne,
Tão ausente, vago,
Que pegar quisera
Na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
Que existe amanhã?
Então um sorriso
Nascera no fundo
De tua miséria
E te destinara
A melhor sentido.
Exato, amanhã
Será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.


Carlos Drummond de Andrade

13 de julho de 2012

UMA REFERÊNCIA CONFIÁVEL É O SANTO GRAAL DA PUBLICIDADE

Uma vez a cada cem anos a mídia muda. Os últimos cem anos foram definidos pelos meios de comunicação de massa. Nos próximos cem anos, a informação não será simplesmente empurrada para cima das pessoas. Ela será compartilhada por meio das milhões de conexões que ligam os cidadãos (...) Nada influencia mais as pessoas do que a recomendação de um amigo de confiança (...) Uma referência confiável é o santo graal da publicidade.


Mark Zuckerberg

12 de julho de 2012

LINKS PP (VOL. 03)

Perfis Digigráficos
Phocus Interact
Grupo IBOPE - Pioneirismo e liderança na busca apurada por informação e conhecimento
Nielsen
Ipsos

O VALOR DE UM PRODUTO

Alguém quer vendê-las a nós a fim de obter lucro. Para consegui-lo, em primeiro lugar tem de nos convencer de que gastar nosso dinheiro vale a pena. Isso exige que o produto tenha valor de uso que justifique seu valor de troca. O valor de uso relaciona-se à utilidade de um produto quanto à satisfação da necessidade humana, e o valor de troca refere-se a seu potencial para ser trocado por outros bens ou serviços. As pessoas que querem vender seus produtos devem procurar alguma distinção para eles, fazendo os mais antigos parecerem vencidos, obsoletos e inferiores. Então, como já indicamos, o desejo por um produto deve ser criado de maneira que todo sacrifício voltado para sua compra seja secundária em comparação a sua posse.

"A maneira como enxergamos os problemas influenciará o que é considerado a solução apropriada."


Zygmun Bauman

5 de julho de 2012

UMA DAS FACETAS DO PODER

O poder é, consequentemente, a capacidade de ter possibilidades. Assim, ter poder é ser capaz de atuar mais livremente, enquanto ser relativamente menos poderoso, ou impotente, corresponde a ter a liberdade de escolha limitada por decisões alheias - de quem tenha capacidade de determinar nossas ações. A desvalorização da liberdade do outro na busca de ampliação da própria liberdade pode ser resultado de dois métodos.

O 1º é a coersão, que compreende a manipulaçao das ações de tal maneira que os recursos de outras pessoas se tornem inadequados ou ineficazes no contexto em questão, por maiores que possam parecer em outros casos. Um jogo inteiramente novo é criado pela manipulação de uma situação de modo que quem a manipula possa então assumir a dianteira: por exemplo, se a vítima de um ladrão é um banqueiro rico ou um político poderoso, seus respectivos recursos, que lhes asseguram alto grau de liberdade em outras circunstâncias, perdem a "capacidade de possibilidades", quando um ou outro é confrontado, em uma rua escura e deserta, com uma faca ou com o poder físico superior de um assaltante.

O 2º método consiste na estratégia de cooptar os desejos do outro em favor dos objetivos de alguém. O que caracteriza essa forma é a manipulação da situação de maneira tal que só se podem alcançar os valores visados seguindo as regras estabelecidas pelo detentor do poder. Assim, o zelo e a eficiência com que inimigos são mortos são recompensados, destacando-se a posição social do bravo soldado com medalhas e citações honoríficas. Os operários podem assegurar melhores padrões de vida (aumentos de salário) desempenhando seu trabalho com mais dedicação e intensidade e obedecendo, sem questionar, aos regulamentos administrativos. Os valores dos subordinados transformam-se, então, nos recursos de seus superiores hierárquicos. Não são avaliados como fins em si mesmos, mas como meios a mobilizar a serviço dos objetivos dos detentores do poder. Ter poder significa, entre outras coisas, ser capaz de decidir o que não é importante e o que não deve ser objeto de interesse.

"Dar emprego" significa sujeitar a pessoa inteira, corpo e alma, à tarefa determinada pelo empregador, para quem o trabalhador se torna simples meio para a realização de seus objetivos. Dessa maneira, apesar dos protestos em contrário, os trabalhadores eram solicitados a dar em troca dos salários toda a sua personalidade e a sua liberdade.

Assim, o poder dos proprietários das fábricas sobre os trabalhadores estabeleceu-se segundo essas assimetrias de poder. Decorre daí a observação de Marx quanto ao fato de que, em contraste com o capitalismo, em condições de escravidão, os proprietários tinham algum interesse no bem-estar de seus escravos. Esse relacionamento foi substituído por uma forma abstrata de troca na qual os empregadores não tinham interesse algum no bem-estar físico e mental dos trabalhadores. Os empregadores definiram o significado do emprego e se reservaram o direito de decidir o que era e o que não era tema de seu interesse  - direito que negavam a seus empregados. No mesmo tom, a luta dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e maior participação no processo produtivo teve de se transformar em luta contra o direito de o empregador definir os limites e os conteúdos da ordem do local de trabalho.


Zygmunt Bauman

O PROCESSO DE ADESÃO E PERPETUAÇÃO NA IGREJA

Atos abertos de conversão são considerados libertação e começo de uma nova vida - e não se trata de ação do destino, mas de ato marcado pelo livre-arbítrio e entendido como manifestação verdadeira de uma liberdade recém-descoberta. Ficam veladas nesse momento, entretanto, as pressões que serão exercidas sobre os convertidos para que permaneçam obedientes à fé recém-abraçada e consagrem em seguida sua liberdade àquilo que a causa possa demandar. Por conseguinte, as exigências dirigidas a esses adeptos podem não ser menos excessivas que aquelas invocadas pela tradição histórica ou pela predisposição genética para legitimar suas práticas.

As comunidades de fé não podem se limitar à pregação de um novo credo com a intenção de unir futuros devotos. A devoção nunca estará assegurada se não for sustentada por rituais, isto é, uma série de eventos regulares - festividades cívicas, reuniões partidárias, serviços religiosos - de que os fiéis são convidados a participar como atores, de modo que sua filiação e seus destinos comuns sejam reafirmados, e a devoção, reforçada. Naturalmente haverá, contudo, variações na severidade e no volume das exigências feitas a esses integrantes. Quanto mais abrangente for a comunidade, mais opressiva tenderá a se tornar.

O carisma foi a primeira qualidade notada no estudo das influências profundas e indiscutíveis exercidas pela igreja sobre o fiel. Quanto mais forte for o carisma dos líderes, mais difícil é questionar seus comandos e mais confortável para os seguidores de suas ordens quando expostos a situação de incerteza.

Os esforços para preservar a ortodoxia e para impedir ou eliminar a heresia têm como objetivo o controle sobre a interpretação. O poder em questão visa a ganhar o direito exclusivo para decidir qual das interpretações possíveis deve ser escolhida e tornada obrigatória como a verdadeira. A busca de um monopólio do poder expressa-se escolhendo os proponentes das alternativas para o papel de dissidentes e é acompanhada por uma intolerância que pode ser corporificada em perseguição. Desse ponto de vista, toda disciplina que procura algo além da produção de conhecimento com a finalidade de controle se tornará alvo do ataque daqueles que investiram na ordem estabelecida.


Zygmunt Bauman

1 de julho de 2012

QUESTIONAR-SE

Com o colapso das realidades passadas, questionamos as auto-definições que nos mantiveram até então, descobrimos que tudo está à nossa disposição, questionamos quem somos e o que estamos tentando ser e se nesta nossa vida, a única que temos, nossas realizações e objetivos têm ainda algum valor. Nosso casamento faz sentido? Nosso trabalho vale a pena ser feito? Amadurecemos... ou simplesmente nos acomodamos? As nossas conexões com a família e os amigos são intercâmbios de amor ou dependências desesperadas? Até que ponto desejamos, ou ousamos, ser fortes e livres?


Judith Viorst (Perdas Necessárias; pág: 277)

ERA BOM


A luz do Sol no jardim
Perde a suavidade e fica gelada,
Não podemos capturar o minuto
Dentro da sua rede de ouro,
Quando tudo já foi dito
Não podemos implorar perdão.

Nossa liberdade como freelancers
Caminha para o fim;
A terra atrai impiedosa
Sonetos, e pássaros descem;
E logo, amigo,
Não teremos tempo para danças.

O céu era bom para voar
Desafiando os sinos das igrejas
E todas as cruéis sereias
de ferro e o que eles dizem:
a terra chama,
Estamos morrendo, Egito, morrendo.

E sem esperar perdão
De novo enrijecido em terra,
Mas feliz por ter se sentado sob
Trovões e chuva com você,
E agradecido também
Pela luz do Sol no jardim.


Louis MacNeice