1 de novembro de 2011

VOCÊ E O SEU RETRATO


Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?
Talvez porque o retrato,
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.
Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
como, no fundo da água,
(um coral em repouso).
Talvez pela ideia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocando entre nós dois
(como um ramo de bortênsia).
Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente
(amorosamente).
Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).
Talvez porque, no retrato,
você está imóvel
(sem respiração...)
Talvez porque todo retrato
é uma retratação.


Cassiano Ricardo

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