24 de junho de 2011

SOLIDARIEDADE


Os especialistas no assunto já me disseram que não se deve ajudar pessoas nos semáforos, pois isso é incentivar a malandragem e a mendicância. Mas me diga: o que vou dizer àquela criança que me olha e pede: "Compre, por favor..."? Vou lhe dizer que já contribuo para uma instituição legalmente credenciada? Diga-me: o que é que eu faço com o olhar dela? "E aí me dá uma tristeza no meu peito feito um despeito de eu não saber como lutar...". Só me restam meu inútil sorriso, minhas inúteis palavras, meu inútil real por um pacotinho de balas de goma...

A solidariedade é como o ipê: nasce e floresce. Mas não em decorrência de mandamentos éticos ou religiosos. Não se pode ordenar: "Seja solidário!". A solidariedade acontece como um simples transbordamento: as fontes transbordam... Da mesma forma que o poema é um transbordamento da alma do poeta, e a canção, um transbordamento da alma do compositor...

Disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna humanos. É um sentimento estranho - que perturba nossos próprios sentimentos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho das suas balas. Eu e a criança - dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável, esse sentimento imaginado se aloja em meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha vindo, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por um mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é a forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade o meu corpo passa a ser morada do outro. É assim que acontece a bondade.


Rubem Alves (Por Uma Educação Romântica; págs: 133, 135, 206 e 207)

22 de junho de 2011

ACONTECEU NA ENTRADA DO CÉU... EU JURO!

Pastor Malacraia, fervoroso combatente contra a legalização da livre sodomia no Brasil estava na TV debatendo o tema com Toninho Rainhas (líder nacional da ABGBLT - Associação Brasileira de Gays, Bissexuais, Lésbicas e Transexuais) que, ao contrário do Pastor Malacraia, defendia fervorosamente que homem é homem, menino é menino, macado é macado e viado é viado.

Acontece que, num sei por que cargas d'agua... Há, tá bom vai! Como eu sou o criador desta estória, eu fiz com que dois refletores bem pesados do palco do programa caíssem respectivamente na cabeça dos dois, e as alminhas deles foram subindo ao céu como o Alex Kid quando morre no jogo. Alguém lembra do game Alex Kid do Master System? Alguém? Alguém?

Enfim, como mariposas numa noite de chuva voando em direção à lâmpada quente, os dois como dita a praxe de qualquer imagem do céu, foram caminhando para a luz.

Enquanto Toninho caminhava choramingando mimimimi emocionado com a luz, Malacraia que já esperava algo parecido, estava equacionando na mente o tamanho da mansão celestial que ia receber e quantos diamantes ia ter na coroa dele, sendo que cada diamante equivale ao número de pessoas que se converteram através de seu ministério.

Jesus, junto com o inseparável anjo Gabriel, fez questão de recebê-los!

- Oláááááááá queridos! Bem-vindos ao céu, venham para meus braços, aqui há muitas morad...

No que foi interrompido abruptamente pelo Malacraia, que vociferava com toda sua fúria e saliva:

- COMO ASSIM BEM-VINDOS NO PLURAL??? ACEITARÁS ESTE PERVERTIDO NO CÉU??? NÃO ADMITO ISSO!!! ESTÁ NA PALAVRA, PODE CONFERIR!!! O SENHOR JAVÉ A INSPIROU!!! ME TRAGAM UMA BÍBLIA AÍ QUE EU MOSTRO!!!

Jesus, removendo o cuspe do Malacria de sua barba, olhou para o Gabriel e perguntou:

- Tem algum exemplar do livrão na biblioteca celestial?

- Pera chefe, vou ligar pra lá! Aló!? Ei Salomão, tem algum exemplar do livrão aí!? Tem!? Ótimo! Manda aí! Pronto, apareceu aqui! Valew cara! Não esquece que hoje vai ter sinuquinha lá no Sky Ceia Bar! Os Mamonas vão dar uma canja lá! Massa, combinado! Té mais seu nerd! Pronto chefe, tá aqui o livrão!

Jesus disse:

- Pronto Malacraia, o livro está aqui!

Malacraia respondeu:

- NUUUUUUNCA PENSEI QUE FOSSE TER QUE ENSINAR A BÍBLIA PRO PRÓPRIO JESUS, MAS BORA LÁ, TEM ESSA NÃO! NUNCA É TARDE PRA APRENDER NÉ? POIS Ó, GABRIEL, LEIA AÍ PARA O TEU CHEFE LEVÍTICO 18:22, LEVÍTICO 20:13, 1 CORÍNTIOS 6: 9-10 E ROMANOS 1:18-27. LEIA AÍ! TA TUDO AÍ NA PALAVRA DE DEUS! VAI SE CONTRADIZER AGORA SENHOR??? DEPOIS DE VELHO??? VAI VIRAR O RICARDO GONDIM AGORA??? ME RESPONDA!!!

Jesus, novamente removendo o bombardeio de saliva do Malacraia da barba olhou de lado e perguntou pro Gabriel:

- E aí? confere?

- É chefe, confere!

E Toninho, coitado, soltou uns mimimi's mais mimimi's ainda!

Jesus disse:

- Poise é, diante disso não me resta muita coisa a fazer né!? Pô Toninho, foi por pouco meu velho, desculpa aí qualquer coisa viu! Por mim você entrava, de verdade, mas sabe como são os pais né, meu Pai Javé é muito cabeça dura para mudanças! Perfeccionista no que diz respeito a onde encaixar as genitálias! Ele quer que tudo seja de acordo com o propósito natural que Ele criou. Trocando em miúdos, cú foi feito pra cagar! Eu sei, meu pai é assim mesmo! É muito difícil mudar a cabeça de um velho. Quase que Ele não deixava eu descer à terra! E mesmo assim, quando eu voltei de lá todo arrebentado Ele foi logo jogando na minha cara: - Eu num disse? Tooooooome pra você aprender! Ainda vai? És muito teimoso meu filho! Etc. Enfim... Vá entender Ele né!? (Respirou fundo e prosseguiu...) Pois bem, diante do livrão não há nada que eu possa fazer. Gabriel, leve os dois lá pra baixo!

Enquanto o Toninho soltava um xilique ameaçando um desmaio com os mimimi's mais altos que já chorou na vida. Malacraia pertubado, atordoado, alucinado, sem acreditar, surpreso com a sentença vociferou:

- COMÉ QUE ÉÉÉÉÉÉ??? ISSO É UM ABSURDO SENHOR!!! QUEM FOI EFEMINADO, SODOMITA, QUE DEIXOU O COSTUME NATURAL, FOI PROMÍSCUO, DEFENDEU A PL-122, ENFIM, QUEM DEU O CÚ AQUI FOI ELE SENHOR!!!

No que Jesus, depois de novamente limpar a barba do cuspe do Malacraia respondeu:

- É verdade meu filho, ele deu o cú. Mas convenhamos Malacraia, francamente, você foi muito pau-no-cú* com seu irmão Toninho agora! Então, pau no cú por pau-no-cú, desce os dois! Assunto encerrado!

Portanto, quem afirma estar na luz mas é pau-no-cú com seu irmão, continua nas trevas.
1 joão 2.9 (Traduzido dos originais para o português por Falcão, humorista cearense)

* Pau-no-cú (Dicionário cearense) - Pessoa extremamente babaca, que gosta de prejudicar as outras ou gosta de ver os outros em dificuldade. Ex. "O motorista pau-no-cú me fechou no cruzamento e eu atropelei a velha!"


George Facundo (Mundo Facundo)

20 de junho de 2011

O TEMPO É TUDO AO MESMO TEMPO

Por: Diego Cosmo
A Invenção de Hugo Cabret

O tempo em que vivemos é o mesmo que nos tira a oportunidade de continuar. O tempo que nos conscientiza de que a vida é uma aquarela é o mesmo que nos angustia por nos dizer que ela já está acabando. O tempo em que podemos fluir é o mesmo que devora tudo a cada segundo que passa. O tempo que estanca diante de um lastimável acontecimento é o mesmo que eterniza os momentos de glória. O tempo em que sofremos e perdemos é o mesmo que alicerça-rá o tempo de desfrutar e de ser feliz. O tempo que nos permiti aprender é o mesmo que nos faz botar tudo a perder.

Depois do final das contas, do último uso, do fim da festa, do fim do relacionamento, da despedida, depois do thau. No fim do tempo... O que restará serão só as lembranças. O tempo em si nos diz a cada tic-tac que vivemos no espaço e no tempo, nossa realidade está dentro desse paradigma, portanto qualquer ação que fuja a essa dimensão não diz respeito ao estado ou ao mundo em que vivemos.

A verdade é que o tempo persegue a todos nós, talvez o único fato que questione em certo grau o livre arbítrio seja esse.

Bom... Como já disse meu amigo Wendel: "Deixemos de coisa, cuidemos da Vida".

AQUARELA



Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo,
E com cinto ou seis retas é fácil fazer um castelo.
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva,
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva.

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel,
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu.
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul,
Vou com ela, viajando, Havai, Pequim ou Istambul.
Pinto um barco a vela branco, navegando, é tanto céu e mar num beijo azul.

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená,
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar.
Basta imaginar e ele está partindo, sereno, indo,
E se a gente quiser ele vai pousar.

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida,
Com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida.
De uma América a outra consigo passar num segundo,
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo.

Um menino caminha e caminhando chega no muro,
E ali logo em frente, a esperar pela gente, o futuro está.
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar,
Não tem tempo nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda nossa vida e depois convida a rir ou chorar.

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá,
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Vamos todos numa linda passarela,
De uma aquarela que um dia, enfim, descolorirá.


Toquinho (Aquarela)

15 de junho de 2011

EM NOME DE JESUS

drama da narrativa bíblica reflete, em muitos sentidos, um árduo esforço divino para eliminar da mente humana o conceito de magia: a noção de que, através de fórmulas mágicas ou procedimentos estabelecidos, Deus ou o universo podem ser manipulados para atingirmos o objeto que temos em mente. Desde a primeira página, um dos traços mais distintivos do Deus das Escrituras é que ele não pode ser convencido a fazer o que não tencionava fazer em primeiro lugar. Não há ritual ou palavra mágica que possa torcer o seu braço a fazer o que queremos. Se Deus concede o que homens lhe pedem é reflexo da sua magnanimidade e da intimidade de relacionamento que ele propõe, jamais da habilidade humana em manipulá-lo.

Essa obsessão divina em apagar da experiência humana a ideia da magia explica muito nas filigranas dos mandamentos e da lei de Moisés. Israel não deve ter "outros deuses além de mim", entre outras coisas, porque os deuses dos outros povos são entidades manipuláveis - aceitam suborno, dobram-se diante do ritual certo, vendem-se por um sacrifício, negociam, especulam e cedem a barganhas. Deus sabe que não é assim que o seu universo funciona, e não quer que seu povo adote essa visão distorcida do mundo. Pela mesma razão ele deita rigorosas proibições contra feitiçaria, amuletos e toda espécie de adivinhação.

O próprio regime de sacrifícios não pressupõe nenhum controle mágico do mundo; as prescrições deixam muito claro que trata-se de provisão graciosa para a purificação dos pecados, e não de instrumento de manipulação. Deus faz alianças e assina contratos que beneficiam outros além de si mesmo, mas não distribui senhas ou abracadabras. No mundo dele você pode pedir, mas não pode obter o que quer por mágica, isto é, pela força e pela argúcia.

O que o Primeiro Testamento elucida o Novo escancara: Jesus passeia pelo mundo demolindo a noção essencialmente mágica de favor prestado e retribuição. Deus - explica o Filho do Homem - não distingue méritos e não rebaixa-se a troca de favores, mas "faz que o seu sol se levante sobre maus e bons". Seus filhos não devem recorrer a repetitivas fórmulas mágicas em suas orações, "porque vosso pai sabe o que vos é necessário, antes de vós lhe pedirdes". Não é o pecado nem o bom comportamento que explicam as desgraças ou as felicidades, porque o mundo não funciona pela lógica simplista e retributiva da magia ("Pensais que esses galileus eram mais pecadores do que todos os outros galileus, por terem sofrido essas coisas?").

O universo - Jesus explica - funciona pela lógica singular da graça, não pela lógica humana da magia e da retribuição. Esta é, essencialmente, a natureza da boa nova do reino: Deus não pode ser manipulado a fazer o bem que já está disposto a fazer em primeiro lugar.

A magia, no entanto, tem um brilho sedutor, e os cristãos resvalam periodicamente  nela: recorremos cheios de esperança a óleos milagrosos, profetas curandeiros, caixinhas oraculares de versículos, bibliomancia, quarentenas de oração e copos d'água. Mesmo a obsessão cristã com o domingo é essencialmente mágica, quando o apóstolo alerta a não cairmos na velha armadilha de "dias de festa, ou lua nova, ou sábados", coisa que "têm aparência de sabedoria e de rigor ascético [...], mas não são de valor algum senão para a satisfação da carne".

O emblema final e mais eloquente da capitulação cristã a uma visão mágica do mundo talvez esteja no abuso, popular à náusea entre evangélicos e pentecostais, da expressão "em [o] nome de Jesus". Orar e pedir "em nome de Jesus", conforme prescrito no Novo Testamento, era provavelmente para ser entendido como se lê; seria orar "como Jesus oraria", ou pedir "imbuído do espírito de Jesus". Com o tempo, o enfoque migrou do espírito para a letra; transferiu-se da pessoa e da postura de Jesus para as palavras, imbuídas supostamente de autoridade e poderes sobrenaturais (de forma semelhante ao Shem Hamphoras da tradição judaica medieval). O conteúdo reduziu-se a fórmula, abracadabra que abre - esperamos - todas as portas.


Paulo Brabo (A Bacia das Almas; págs: 34, 35 e 36)

14 de junho de 2011

CEARÁ


Ser do Ceará é mais do que nascer no Ceará, é conseguir reconhecer, à distância, uma cabecinha redonda, um sotaque cantado, uma orelha de abano, um jeito maroto de encarar a vida.

Ser do Ceará é saber a estação certa de colher um sapoti, conhecer os vários tipos de manga e nunca comprar ata verde demais; é dar sabor a um baião de dois com queijo coalho.

Ser do Ceará é gostar de cocada, de suco de tamarindo, de siriguela vermelha, de água de côco docinha.

Ser do Ceará é engolir o final dos diminutivos - cafezinho vira cafezim; Antônio vira Toim; bonzinho vira bonzim. Lá se fala aperreio na hora do sufoco; o apressado é avexado; o triste fica de lundu; quem cria problemas, bota boneco.

Ser do Ceará é morar onde os muros são baixos; lá todo mundo sabe da vida alheia. A melhor conversa entre cearense é fofocar. Aparecer em coluna social sempre foi o máximo. Pense nos que pertencem a família com pedigree? Eles fazem parte dos eleitos: Studart, Frota, Távora, Jeiressati, esses, sim, são considerados o supra-sumo.

No Ceará não se compra casa do lado do sol; ninguém valoriza casa com a frente voltada para o poente. O sol não perdoa; é inclemente, ardido, feroz, cansativo. No Ceará, quem não souber lhe dar com o astro rei, dura bem poquim. Entre dez da manhã e cinco da tarde, esse bichim brilhante deixa todo mundo melado; não existem peles secas no Ceará, todas são oleosas.

Ser do Ceará é aprender a dormir de rede, a gostar do cheiro de lençol limpo, a tomar banho frio, a valorizar a brisa do mar. Lá o perfume de sabonete tem outro valor. No Ceará as mulheres não usam meias finas, os homens não toleram gravatas e as crianças não sabem o que é uma blusa de lã.

Ser do Ceará é ter orgulho de afirmar que pertence à terra de José de Alencar, Patativa do Assaré, Fagner, Eleazar de Carvalho, Clóvis Bevilácqua. Lá amam-se as artes. Não tem coisa mais bonita que assistir a um repente na praça do Ferreira. Como se cria repente com facilidade. Está no sangue conversar com rima.

Ser do Ceará é lidar com umidade, com camisas empapadas de suor, com mofo, com moscas aos milhões, com muriçocas impertinentes, com baratas avantajadas, com viroses brabas, com desidratação súbitas. Lá os fracos morrem rapidim. O darwinismo, teoria da sobrevivência dos mais fortes, se prova facim. No Ceará, nuvens negras são prenúncio de bom tempo e relâmpago, uma benção. Em dia chuvoso ninguém quer sair de casa.

Ser do Ceará é rir por tudo. E tudo vira piada. Em um dia lendário, estava nublado, quando o sol resolveu rebentar as nuvens... E levou uma sonora vaia. Não conheço nenhum povo que tenha vaiado a estrela maior.

Os cearenses são antes de tudo uns fortes. Ao mesmo tempo, deliciosamente bons e perversamente maus. Lá é terra de pistoleiro e de santo, de revolucionário e de coronel caudilho, de guerreiro e de preguiçoso.

Sou cearense. E por mais que tenha me afastado, não consegui apagar o meu amor pelo chão que me acolheu no mundo. Lá nasci, casei e tive filhos. No Ceará, despertei para o mundo, como também, infelizmente, sepultei o restim de esperança que nutria pela humanidade. O Ceará foi o meu ninho e é o túmulo dos meus ideais. Em Fortaleza, tive as maiores alegrias e as mais duras agonias.

Contudo e apesar de tudo, continuo enamorado do meu berço. Não pretendo desvencilhar-me de ti, loira desposada do sol.


Ricardo Gondim

10 de junho de 2011

PREITO AOS AMIGOS

amigo é aquele que tem todos os motivos para desistir de você e não desiste. Você fez por merecer a separação. Exagerou. Afastou o braço, gritou que ele não o compreende. Mas o amigo entende até na incompreensão. Aguarda entender. Eu preciso de um amigo que não me renuncie quando já desisti. Que me lembre de não desistir. Que seja insistente como o esquecimento dos velhos. Que desperte o meu humor no desespero, que se desespere com a ausência de notícias. Um amigo que não numere as páginas do livro. Toda página pode ser a mesma. Um amigo que sopre meu rosto perto de sua boca, como uma gaita de mão. Um amigo capaz de esconder seu amor para proteger a amizade e de me aconselhar a seguir o que ele tinha vontade. Um amigo que desconheça minha infância para repeti-la, que conheça minhas dores para não tocá-las, que assobie minha alegria para alardeá-la. Que não me torture com os meus defeitos. Que me perdoe por não ser como ele. Aliás, que me agradeça por não ser igual a ele. Um amigo que não use meus segredos para ganhar outros amigos. Um amigo que abra o vidro do carro para apanhar o resto do céu. Que cante alto no volante no momento em que ansiava pelo silêncio e me obrigue a dispensar a timidez para desafinar junto. Na estrada, o vento também canta de olhos fechados. Um amigo com cheiro de cortina. Isso: cheiro de cortina, com a experiência de enrolar várias e várias vezes o corpo na cortina. E que tenha recebido beijos dos pais com o tecido arregalado no rosto. Quem se escondeu na cortina deu giros dentro de si e de seus problemas e aprendeu a regressar. O amigo do primeiro desejo, não do último. O amigo que não me espera no recreio, o amigo que me espera no final da aula. O amigo que é a haste do mar, que não fica de pé no barco, para não desequilibrá-lo. Não quero um amigo que fuja na primeira ofensa, que se isole ofendido num canto, amarrado no orgulho, condicionado às palavras. Um amigo que não fale por mim, que fale através de mim. Não quero um amigo que me ofenda porque não atendi suas expectativas. Amigo não tem expectativas, tem esperança. O amigo vai procurá-lo não sendo necessário. Vai aumentá-lo enquanto está diminuído e vai diminuí-lo para preveni-lo da ambição. O amigo é do contra, ao seu lado. O amigo dirá as verdades por respeito, não se eximirá de opinar, tudo com zelo e contenção. Não abandonará a corda da pandorga ainda que ela sirva de fio telefônico para chuva. Tive amigos que se fecharam, desapareceram, que me trocaram por uma fofoca, que chegaram à porta e recuaram ao portão. Esses amigos não foram amigos, só se é amigo depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade. O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão. O amigo sempre volta. Pensando bem, não volta, nunca saiu do lugar. Ele é a rua que atravesso para chegar em casa.


Fabrício Carpinejar




Mermão, me sinto honrado em ser seu amigo, me sinto grato por você não ter desistido de mim naqueles tempos complicados... Obrigado por ter sido sempre íntegro, hoje reconheço com mais lucidez o que você foi e é, como pessoa e como parceiro! Já percebi que você sempre teve a virtude da esperança, que se revelava em ocasiões mais difíceis e com isso dando mais oportunidade para as coisas darem certo. "Se é amigo só depois da amizade. Depois de sofrer com a amizade. O amigo é como um irmão, que se briga feio, se discute aos pontapés e palavrões e volta a se falar. Volta a se falar porque é irmão."

Lembrando das comédias que fazíamos em meados de 2007 e 2008, por ai.. (uhauah) Bate aquela nostalgia, foram tempos que não voltam mais...

Diego Cosmo

3 de junho de 2011

VOAR

Não me recordo o nome do autor. Mas não importa. O texto vale por ele mesmo e não pelo nome daquele que o escreveu. Eu o reconto com as minhas palavras.



Havia um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tão lindo! Mas era uma beleza que doía. O cansaço das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando, as espingardas dos caçadores... Foi assim que um pato selvagem, olhando lá das alturas para essa terra de anões aqui em baixo, viu um bando de patos domésticos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore, poupados do esforço de voar. E havia comida em abundância. O pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse adeus aos seus companheiros, desceu e passou a viver a vida que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos até que de novo chegou o tempo da migração dos patos. Eles apareciam, lá no fundo do azul do céu, formações em "V", grasnando, um grupo após o outro. Aquela visão dos patos em vôo, a memória das alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado. Uma saudade, uma nostalgia de belezas, o fascínio do perigo e o vazio que se abria... Até que não foi mais possível agüentar. Resolveu voltar a ser pato selvagem. Abriu suas asas e bateu-as para voar, como outrora, mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gordo demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste de não poder voar.


Rubem Alves (Religião e Repressão; pág: 8)