21 de março de 2011

JOGO DOS REIS


Calígula ou Nero, esses grandes caçadores de tesouros, esses cobiçadores do impossível, teriam dado ouvidos às palavras daquele coitado [Abade Farias] e lhe teriam concedido o ar que desejava, o espaço que estimava a um preço tão valioso, e a liberdade pela qual se dispunha a pagar tão caro. Mas os reis dos nossos dias, cerceados no limite do plausível, não possuem mais a audácia da vontade; temem o ouvido que escuta a ordem que decretam, o olho que perscruta suas ações; não sentem mais a superioridade de sua essência divina; são homens coroados, nada mais. Antigamente julgavam-se, ou pelo menos diziam ser, filhos de Júpiter, e conservavam alguma coisa das maneiras do deus seu pai - não se controla facilmente o que acontece além das nuvens. Atualmente, os reis deixam-se facilmente imitar. Ora, como sempre repugnou ao governo despótico mostrar à luz do dia os efeitos da prisão e da tortura; como há poucos exemplos de uma vítima das inquisições ter conseguido ressuscitar com seus ossos moídos e feridas ensangüentadas, da mesma forma a loucura, essa úlcera nascida na franja das masmorras, em conseqüência das torturas morais, esconde-se quase sempre caprichosamente no lugar onde nasceu, ou, se dele sair, vai enterrar-se em algum hospital escuro, onde os médicos não reconhecem nem o homem nem o pensamento no escombro informe que lhes entrega seu carcereiro fatigado.

Não existe assassinato em política. Em política, meu caro, sabe tão bem quanto eu, não existem homens, mas idéias; não existem sentimentos, mas interesses; em política, ninguém mata um homem: suprime-se um obstáculo, ponto final.


Alexandre Dumas (O Conde de Monte Cristo; págs: 135, 158 e 159)

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