24 de novembro de 2010

O HOMEM-DEUS


Oh, amo os sonhos dos meus amigos ardentes, jovens, que a sofreguidão de viver deixa trêmulos! "Novos homens virão". "Eles tencionam destruir tudo e começar pela antropofagia. Tolos! A meu ver, nem é preciso destruir nada, mas só e unicamente destruir na humanidade a idéia de Deus, eis de onde é preciso começar! É daí, é daí que se precisa começar - oh, cegos, que nada compreendem! Quando a humanidade, sem exceção, tiver renegado Deus (e creio que essa era - um paralelo aos períodos geológicos - virá), então cairá por si só, sem antropofagia, toda a velha concepção de mundo e, principalmente, toda a velha moral, e começará o inteiramente novo. Os homens se juntarão para tomar da vida tudo o que ela pode dar, mas visando unicamente à felicidade e à alegria neste mundo. O homem alcançará sua grandeza imbuindo-se do espírito de uma divina e titânica altivez, e surgirá o homem-deus. Vencendo, a cada hora, com sua vontade e ciência, uma natureza já sem limites, o homem sentirá assim e a cada hora um gozo tão elevado que este lhe substituirá todas as antigas esperanças no gozo celestial. Cada um saberá que é plenamente mortal, não tem ressurreição, e aceitará a morte com altivez e tranquilidade, como um deus. Por altivez compreenderá que não há razão para reclamar de que a vida é um instante, e amará seu irmão já sem esperar qualquer recompensa. O amor satisfará apenas um instante da vida, mas a simples consciência de sua fugacidade reforçará a chama desse amor tanto quanto ela antes se dissipava na esperança de um amor além-túmulo e infinito" ...e assim por diante, tudo coisas desse gênero. Um primor!"


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; págs: 839 e 840)

16 de novembro de 2010

TALVEZ NÃO HAJA NENHUM JUÍZO FINAL...


Você sabe que não me assusto com profecias do fim do mundo, coisa que certamente também se aplica a você. Mas isso que chamamos de profecias autorrealizáveis me enche de pavor. Pois talvez não exista nenhum céu novo e nenhuma terra nova. Talvez não haja nenhum "juízo final" com a redenção dos crentes. Talvez este planeta seja o único que temos, o nosso único lar e a nossa única pertença. Neste caso, não há nada mais importante que a nossa responsabilidade por ele e pela sua biodiversidade.


Jostein Gaarder (O Castelo Nos Pirineus; pág: 67)

12 de novembro de 2010

O PERDÃO E A MULHER AMADA


Deus te proteja, amável menino, de que um dia tenhas de pedir perdão à mulher amada por uma culpa tua! Particularmente à mulher amada, particularmente, por mais culpado que sejas perante ela! Porque a mulher é, meu irmão, o diabo sabe o que é, eu pelo menos entendo delas! Mas tenta te confessar culpado perante ela, "a culpa é minha, dirias, perdoa, desculpa": aí desabará uma saraivada de censuras! Por nada nesse mundo ela te perdoará com franqueza e simplicidade, mas te humilhará até reduzir-se a um trapo, descontará até o que não houve, levará tudo em conta, não esquecerá nada, acrescentará coisas de sua parte e só então desculpará. E isso ainda sendo a melhor, a melhor entre elas! Raspará até a última mágoa e despejará tudo em tua cabeça. - Tal é, eu te digo, a ferocidade que há nelas, em todas e em cada uma, nesses anjos sem os quais nos é impossível viver! Vê só, meu caro, e eu te digo de modo franco e simples: todo homem decente deve estar sob o tacão de ao menos alguma mulher. Essa é a minha convicção; não é uma convicção, mas um sentimento. O homem deve ser magnânimo, e isso não é uma desonra para o homem. Isso não desabona nem um herói, não desabona nem a César! Mas ainda assim não peças perdão, nunca nem por nada. Lembra-te dessa regra: ela te foi ensinada por teu irmão Dmitri, que se perdeu por causa das mulheres. Não, é melhor que eu mereça alguma coisa de Grucha, mas sem perdão. Eu a venero, Alieksiêi, eu a venero! Só ela não vê isso, não, sempre acha pouco o amor. E me atormenta, me atormenta com o amor. Como era antigamente! Antigamente, só as curvas infernais de seu corpo me atormentavam, mas agora minha alma está embebida de sua alma, e através dela eu mesmo me tornei um homem! Será que nos casarão? Porque sem isso morrerei de ciúme. O fato é que sonho com alguma coisa todo santo dia... O que ela te disse a meu respeito?


Fiódor Dostoiévski (Os Irmãos Karamázov; págs: 771 e 772)