3 de fevereiro de 2010

A VIDA É A UMA PEÇA


Noite retrasada sonhei que estava no intervalo de uma peça de teatro – uma peça que eu mesmo estava representando com um grupo de amigos. Era o intervalo que antecedia o último ato, o mais importante, e faltavam poucos minutos para voltarmos ao palco. A sala comprida e estreita onde aguardávamos ficava ao lado e ao longo da platéia, e por uma porta entreaberta eu podia que ver muitas cadeiras da platéia já estavam desocupadas: duas faxineiras varriam sem qualquer constrangimento as fileiras que haviam esvaziado por antecipação.

O sucesso da peça, eu sabia, era por alguma razão de uma importância tremenda, questão de vida ou morte para nós que representávamos nela. Senti que deveria dizer alguma coisa para meus colegas atores, enfatizar a importância crucial do último ato ou prepará-los para o choque de ver que a platéia se esvaziava. Antes que pudesse dizer o que não me sentia preparado para dizer, fui despertado do sonho. Mais tarde na manhã de ontem recebi a notícia de que as cortinas da vida real haviam se fechado pela última vez para um amigo: no canto do palco onde enceno minha modesta parte na peça da existência, havíamos amanhecido com uma personagem a menos. Nesses últimos meses alguns personagens-chave têm abandonado da forma mais inesperada o limitado círculo de atores que encenam comigo o enredo improvável da vida. Alguns o fizeram voluntariamente; outros, como aconteceu ontem, sem nenhuma culpa. Alguns tenho esperança de rever ao meu lado no palco; outros, como o de ontem, não nesta vida.

Pensando na perda de ontem, revejo mentalmente as poucas e breves cenas em que contracenamos juntos. Reescrevo as mesmas cenas até a perfeição, mas agora é naturalmente tarde demais: algumas falas permanecerão para sempre sem serem ditas. Na vida, minha gente, nenhum personagem é secundário e todos os momentos são momentos-chave. Cada momento é de definição, e as reviravoltas são definidas a cada diálogo, a cada fala, cada atitude, cada omissão. À medida que esses personagens saem de cena, não só fico sem nenhuma idéia de como a peça pode prosseguir sem eles: um final feliz fica parecendo também cada vez mais improvável. Minha pobre homenagem é persistir: guardar a esperança de rever o sorriso dessa gente numa gloriosa cena final, na reviravolta mais esperada de todas – se não neste palco, no que está por vir.

Se fizermos tudo direitinho, os aplausos não serão para nós.


Paulo Brabo (Um a Menos)

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