26 de fevereiro de 2010

AINDA SOMOS OS MESMOS



Não quero lhe falar meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar e eu sei que
O amor é uma coisa boa mas também
Sei que qualquer canto é menor que a
Vida de qualquer pessoa.

Por isso cuidado meu bem, há perigo na
Esquina eles venceram e o sinal está
Fechado pra nós, que somos jovens.

Para abraçar meu irmão e beijar minha
Menina na rua é que se fez o meu
Lábio, o meu braço e a minha voz.

Você me pergunta pela minha paixão
Digo que estou encantado com uma
Nova invenção, vou ficar nessa cidade
Não, não vou voltar pro sertão pois
Vejo vir vindo no vento o cheiro da
Nova estação.

E eu sei de tudo na ferida viva do meu
Coração, já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória esta lembrança
É o quadro que dói mais.

Minha dor é perceber que apesar de
Termos feito tudo, tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais.

Nossos ídolos ainda são os mesmos e
As aparências, as aparências não me
Enganam não, você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém.

Você pode até dizer que eu estou por fora
Ou então que eu estou enganando mas é você
Que ama o passado e que não vê, é você que
Ama o passado e que não vê que o novo
Sempre vem.

E hoje eu sei que quem me deu a ideia
De uma nova consciência e juventude
Está em casa guardado por Deus
Contando seus metais.

Minha dor é perceber que apesar
De termos feito tudo, tudo que fizemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos

Como nossos pais!


Belchior (Como Nossos Pais)

22 de fevereiro de 2010

SER OU NÃO SER?


Quando é que alguém era ele próprio? Quando era como sempre costumava ser? Ou como era quando a lava incandescente dos pensamentos e dos sentimentos enterrava todas as mentiras, as máscaras e as autoilusões? Frequentemente eram os outros que se queixavam que alguém deixou de ser ele próprio. Talvez isso significasse, na verdade: ele não é mais como nós gostaríamos que fosse. No fim das contas, tudo não seria simplesmente uma espécie de grito de guerra contra a ameaça de um abalo daquilo que é habitual, mascarado de interesse e preocupação pelo bem do outro?


Pascal Mercier (Trem Noturno Para Lisboa; pág: 435)

20 de fevereiro de 2010

MEMENTO MORI

Vincent Van Gogh

O senhor e eu somos ambos admiradores de Marco Aurélio, e o senhor haverá de se lembrar deste trecho de seus pensamentos: "Força-te, força-te à vontade e violenta-te, alma minha; mais tarde, porém, já não terás tempo para te assumires e respeitares. Porque de uma vida apenas, uma única, dispõe o homem. E se para ti esta já quase se esgotou, nela não soubeste ter por ti respeito, tendo agido como se a tua felicidade fosse a dos outros... Aqueles, porém, que não atendem com atenção os impulsos da própria alma são necessariamente infelizes".


Pascal Mercier (Trem Noturno Para Lisboa; pág: 37)

16 de fevereiro de 2010

ADVERTÊNCIA!

Meu olho

"Um olhar que parecia uma advertência bíblica a todos aqueles que se deixam levar pela vida sem oferecer resistência".

"É a morte que confere ao instante a sua beleza e o seu pavor. Só através da morte é que o tempo se transforma num tempo vivo".

Pascal Mercier (Trem Noturno Para Lisboa; págs: 115 e 181)


Um relógio público localizado no alto de uma torre não só mostrava as horas, mas proclamava que o tempo não deveria ser desperdiçado, pois o dia do julgamento em breve chegaria e exigiria severamente que todos afirmassem ter usado diligentemente o tempo que lhes fora concedido pelo Senhor.

Geoffrey Blainey (Uma Breve História do Mundo, pág: 158)


"Quando recordamos os nossos dias, eles passaram num relance. O tempo não dura e ninguém tem muito para viver! ALGUMA COISA transpõe o tempo... O quê? O quê? O quê?"

Richard Bach (A Ponte Para o Sempre; pág: 157)

3 de fevereiro de 2010

A VIDA É A UMA PEÇA


Noite retrasada sonhei que estava no intervalo de uma peça de teatro – uma peça que eu mesmo estava representando com um grupo de amigos. Era o intervalo que antecedia o último ato, o mais importante, e faltavam poucos minutos para voltarmos ao palco. A sala comprida e estreita onde aguardávamos ficava ao lado e ao longo da platéia, e por uma porta entreaberta eu podia que ver muitas cadeiras da platéia já estavam desocupadas: duas faxineiras varriam sem qualquer constrangimento as fileiras que haviam esvaziado por antecipação.

O sucesso da peça, eu sabia, era por alguma razão de uma importância tremenda, questão de vida ou morte para nós que representávamos nela. Senti que deveria dizer alguma coisa para meus colegas atores, enfatizar a importância crucial do último ato ou prepará-los para o choque de ver que a platéia se esvaziava. Antes que pudesse dizer o que não me sentia preparado para dizer, fui despertado do sonho. Mais tarde na manhã de ontem recebi a notícia de que as cortinas da vida real haviam se fechado pela última vez para um amigo: no canto do palco onde enceno minha modesta parte na peça da existência, havíamos amanhecido com uma personagem a menos. Nesses últimos meses alguns personagens-chave têm abandonado da forma mais inesperada o limitado círculo de atores que encenam comigo o enredo improvável da vida. Alguns o fizeram voluntariamente; outros, como aconteceu ontem, sem nenhuma culpa. Alguns tenho esperança de rever ao meu lado no palco; outros, como o de ontem, não nesta vida.

Pensando na perda de ontem, revejo mentalmente as poucas e breves cenas em que contracenamos juntos. Reescrevo as mesmas cenas até a perfeição, mas agora é naturalmente tarde demais: algumas falas permanecerão para sempre sem serem ditas. Na vida, minha gente, nenhum personagem é secundário e todos os momentos são momentos-chave. Cada momento é de definição, e as reviravoltas são definidas a cada diálogo, a cada fala, cada atitude, cada omissão. À medida que esses personagens saem de cena, não só fico sem nenhuma idéia de como a peça pode prosseguir sem eles: um final feliz fica parecendo também cada vez mais improvável. Minha pobre homenagem é persistir: guardar a esperança de rever o sorriso dessa gente numa gloriosa cena final, na reviravolta mais esperada de todas – se não neste palco, no que está por vir.

Se fizermos tudo direitinho, os aplausos não serão para nós.


Paulo Brabo (Um a Menos)