24 de dezembro de 2009

CORAÇÃO SELVAGEM



Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção, esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão, eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar.

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja: arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver mas quando você me amar, me abrace e me beije bem devagar que é para eu ter tempo, tempo de me apaixonar, tempo para ouvir o rádio no carro, tempo para a turma do outro bairro ver e saber que eu te amo.

Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente tome um refrigerante, coma um cachorro-quente, sim já é outra viagem e o meu coração selvagem tem essa pressa de viver.

Meu bem, mas quando a vida nos violentar pediremos ao bom Deus que nos ajude falaremos para a vida: "vida, pisa devagar meu coração cuidado é frágil; meu coração é como vidro, como um beijo de novela".

Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão o meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver e esse jeito de deixar sempre de lado a certeza e arriscar tudo de novo com paixão andar caminho errado pela simples alegria de ser.

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo , vem morrer comigo talvez eu morra jovem, alguma curva no caminho, algum punhal de amor traído, completara o meu destino. Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem que outros cantores chamam baby.


Belchior (Coração Selvagem)

11 de dezembro de 2009

O MAIOR SOLITÁRIO



A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, ou se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.


Vinicius de Moraes

8 de dezembro de 2009

DOCE DESILUSÃO


A desilusão é considerada um mal. Trata-se de um preconceito irrefletido. Como, se não através da desilusão, iríamos descobrir o que esperamos e desejamos? E onde encontrar um momento de autoconhecimento, senão precisamente a partir desta descoberta? Como alguém poderia ter clareza acerca de si próprio sem a desilusão?

Não deveríamos sofrer as desilusões suspirando como algo sem o qual nossa vida seria melhor. Deveríamos procurá-las, persegui-las, colecioná-las. Por que me sinto desiludido com o fato de todos os atores idolatrados da minha juventude agora revelarem os traços da idade e da decadência? O que a desilusão me ensina sobre quão pouco vale o sucesso? [...]

Alguém que realmente quer conhecer a si mesmo deveria ser um colecionador obcecado e fanático de desilusões, e a procura de experiências decepcionantes deveria ser, para ele, como um vício, na verdade como um vício dominante de sua vida, pois então ele compreenderia com toda a clareza, que a desilusão não é um veneno quente e destruidor, e sim um bálsamo refrescante e tranquilizante que nos abre os olhos para os verdadeiros contornos de nós mesmos.

"O espírito não passa de um cenário charmoso para um desfile de autoilusões, tecido por belas palavras apaziguadoras que nos iludem com uma intimidade isenta de engano, uma proximidade do conhecimento que nos livra de sermos surpreendidos por nós próprios".


Pascal Mercier (Trem Noturno para Lisboa; págs: 203, 204, 233 e 234)